Um deus monoteísta é algo muito interessante aos poderosos, pois se o próprio deus é centralizado, ou seja, é um só, porque suas manifestações ou suas representações no meio da humanidade não seriam centralizadas, baseadas em uma pessoa?
Centralizar, focar em um ponto central, de preferência bem iluminado e bem alto, é, na questão política, colocar o poder de decisão em uma pessoa — e, por favor, não limite o termo política ao governo de um estado mas a qualquer tipo de governo, o de uma casa, de uma família, de uma empresa, de uma igreja ou comunidade religiosa.
Esse modelo divino tem sido utilizado pra justificar alguns abusos e por acaso (será?), mesmo em estados laicos como o Brasil e EUA, tem crescido de forma assustadora o número de ungidos que chegam a qualquer tipo de poder ovacionados e aclamados por fiéis seguidores ano após ano.
O monoteísmo facilita o controle e manipulação de massa; por mais que alguns reis (e estenda o significado da palavra rei, assim como estendeu significado da palavra política) tinham (e tem) o coração em consonância com Deus, outros muitos (infelizmente a maioria) viviam para si e utilizavam da figura de deus como bem entendiam.
A diferença básica, ou melhor, a má interpretação embutida — pode trocar o embutida por esquecida se quiser — na interpretação das palavras de Cristo no passar da história é que Deus se revelou em três pessoas, três pessoas que se manifestaram de diferentes formas sem nenhuma hierarquia ou ordem de importância, cada uma com uma função específica que muitas vezes se confundem, um afirmando o outro, um abrindo o caminho para o outro, dos profetas ao evangelho ao pentecostes, cada um da sua maneira nos aproximando da criação original na qual já existiam as três pessoas que em si se bastavam.
A Trindade quebra a interpretação centralizadora e nos leva ao relacionamento — relacionamento que é tão misterioso como o próprio Deus uno que se manifesta em três. O Deus que se relaciona não é tão fácil de ser manipulado ou se ser usado como massa de manobra porque lida diretamente com o amor e com o próximo, não serve aos poderes, mas se faz servo para passar a perna nos poderes opressores (pois qual outra finalidade poderia ter o postulado de servidão de Jesus ao dizer quem quiser ser o maior, seja o menor?).
A Trindade quebra com a visão de um deus controlador que vive longe e comanda o mundo para seus próprios fins. Jesus, o Deus que se fez homem, vem como prometido do Deus Pai que se manifestou entre o povo de Israel e quando o Cristo nos deixa, faz questão de mandar o Consolador, que algumas vezes parece se manifestar já no antigo testamento. O Deus é um só, porém parece que tudo o que fez, o fez para nós.
No próximo capítulo, A Trindade com utopia
Kyrie eleison
Infelizmente não achei a autor da escultura que ilustra esse post.
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